sexta-feira, 20 de junho de 2014

Socializando Projeto-PRODESC 2º Semestre

Práticas de Leitura e Escrita

Nas asas do pavão: o tema do cordel em versos, cores, música e formas

7ª e 8ª séries do Ensino Fundamental

Justificativas
A defesa da leitura literária na escola tem sido feita por pensadores das mais diversas áreas. Entretanto, ainda permanecem desafiadoras as questões: O que é a leitura literária? Como promovê‐la na escola?
Buscando refletir‐agir sobre elas, nos limites dessas práticas, partiremos da ideia de que a leitura literária só existe na relação direta do aluno com o texto. Trata‐se de uma relação básica, mas tantas vezes desprezada “pelos usos e abusos da literatura na escola” 2.
Falar sobre a literatura, tomar fragmentos dela para trabalhar atividades linguísticas, ou tomá‐la como ponto de partida para produções “avaliativas” (resumo, ficha de leitura, prova) são exemplos, já bastante condenados, de como fazer da literatura pretexto para outras aprendizagens que, além de às vezes serem pouco significativas, podem implicar resistência e aversão dos alunos a novas experiências de leitura.
Então basta que o professor ofereça ao aluno a oportunidade de ler literatura na escola? Esse é outro equívoco igualmente perigoso. Não podemos ignorar que o grau de letramento literário da maior parte dos alunos ainda é pequeno, faltam‐lhes experiências de leitura literária, que lhes permitam “jogar” com o pacto ficcional que todo texto literário propõe, repetindo ou renovando um gênero. Além disso, a operacionalização das capacidades de leitura3, essenciais para a leitura de todo e qualquer texto, literário ou não, não tem sido garantida pela escolarização básica4.
A leitura compartilhada, com foco nesses conhecimentos, parece‐nos ser um caminho, para que, com a mediação docente, os alunos possam descobrir o prazer diferenciado5, que a entrada no universo literário pode oferecer. Nada disso, pois, deve ser desarticulado da leitura do aluno. Pelo contrário, é em função dela que esses conteúdos merecem ser trabalhados.
Nessa mediação, precisamos nos lembrar também de que a leitura do texto literário não pode encerrá‐lo em si mesmo. Por sua própria natureza, o texto literário promove trânsitos para outros textos, inclusive os não verbais, convidando o leitor a avançar para além das linhas escritas.
1 Elaborado por Marisa Balthasar Soares.
2 A expressão foi emprestada do ensaio homônimo, de Marisa Lajolo (Globo. RJ/Porto Alegre, 1982).
3 Sobre capacidades de leitura, consultar: ROJO, Roxane. Letramento e capacidades de leitura para a cidadania. CD‐ROOM. Programa Ensino Médio em Rede, SEE‐SP/CENP, 2004.
4 Ver a leitura crítica de Roxane Rojo dos dados divulgados pelas avaliações oficiais de leitura (SAEB, PISA, ENEM) em “O insucesso escolar no Brasil do século XX – um processo de exclusão social” in Letramentos múltiplos, escola e inclusão social, da mesma autora. São Paulo: Parábola, 2009.
5 Acreditamos, com Jauss, que a fruição estética não nasce de um contato gratuito com o texto, mas na ação interessada do leitor sobre ele. Quanto mais “armada” essa ação, maior a possibilidade de fruição estética. Ver JAUSS, Hans Robert. “O Prazer estético e as experiências fundamentais da poiesis, aisthesis e katharsis”, in: COSTA LIMA, L.(org.) A Literatura e o Leitor. Textos de estética da recepção. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.
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No caso de nossa escolha, a literatura de cordel, são ainda mais explícitos esses trânsitos: A “matemática” perfeita das sextilhas, os versos em redondilha maior e as rimas bem cuidadas do cordel remontam à literatura oral da Idade Média, com fortes vinculações com a linguagem musical; não sem razão, a viola ainda é a companheira preferida dos cantadores nordestinos, na declamação dos versos. Os temas e enredos dos romances têm muito do colorido e da dinâmica da cultura popular nordestina, com tal força que a recriação desses elementos pelo desenho levou a uma arte irmã: a xilogravura. Felizmente, muitos artistas e pesquisadores têm se voltado para a riqueza dessa tradição, em si multissemiótica, e têm procurado dialogar com ela por meio de canções, vídeos e documentários, resultando em materiais prenhes de possibilidades didáticas e de fácil acesso, o que os torna ainda mais interessantes.
Para o aluno contemporâneo, cercado por signos de múltiplas linguagens, a exploração, bem mediada, desses textos pode favorecer, e muito, o gosto pela leitura literária, ao passo mesmo em que também pode ser aprofundado seu grau de letramentos multissemióticos6.
Objetivos
– Favorecer leituras significativas de textos da literatura de cordel, por meio de atividades de leitura compartilhada e de leitura individual, com foco no aprimoramento de capacidades de leitura;
– Favorecer leituras significativas de textos de diferentes linguagens, respeitando seus códigos e procedimentos específicos, que sejam interessantes para a compreensão da tradição do cordel;
– Propiciar a experiência de criação artística, em linguagens verbal e não verbal, por meio de recriação de versos e da produção de desenhos com técnicas da xilogravura aplicadas a material alternativo.
Procedimentos metodológicos
O projeto sugere a organização do trabalho em cinco aulas (sequenciais ou não, conforme a disponibilidade do professor), com momentos de leitura oral, pausas para questões que acionem capacidades de leitura e propostas de criação, em grupo e individual. Nessa dinâmica, é importante que o trabalho com as questões facilitadoras da compreensão e da crítica leitoras seja oral, em caráter colaborativo. Igualmente relevante é garantir a releitura, que certos momentos do projeto irão requerer. Lembramos, com Vincent Jouve, que desde que um texto seja minimamente construído, “a releitura não é apenas desejável: é necessária”7, para que o aluno possa exercitar conscientemente “diferentes passos” da ação complexa que é a leitura.
Quadro síntese das aulas
(Professor: Avalie se a quantidade de aulas previstas está adequada ao seu ritmo de trabalho com os alunos. Caso haja necessidade, sugerimos que as aulas 1 e 4 sejam divididas em duas.)
6 A esse respeito, ROJO defende letramentos multissemióticos: “exigidos pelos textos contemporâneos, ampliando a noção de letramentos para o campo da imagem, da música, das outras semioses que não somente a escrita” (in op. cit, p.107).
7 JOUVE, Vincent. A leitura (tradução de Brigitte Hervot). São Paulo: UNESP, 2002, p.30.
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AULA 1
AULA 2
AULA 3
AULA 4
AULA 5
O tema do cordel revisitado pela MPB.
Primeira apreciação do cordel: animação
A moça que dançou depois de morta.
(Re)conhecendo a literatura de cordel:
O documentário
A saga do cordel na terra do cacau.
Os gêneros da literatura de cordel:
a peleja,
o ABC,
o cordel de circunstâncias.
O gênero romance na literatura de cordel: leitura e apreciação do folheto
O Pavão misterioso, de José Camelo de Melo Rezende.
Produção de gravuras a partir do romance
O pavão misterioso.
Recursos necessários
QUANTIDADE
MATERIAL
VALOR ESTIMADO
01
DVD (para gravação dos vídeos sugeridos)
R$2,50
01
CD (para gravação da canção sugerida)
R$1,50
01
CD Pavão misterioso, Vários Artistas. Bandeirantes, 2008
R$24,90
(um exemplar por aluno)
Folheto de Cordel: O pavão misterioso, de José Camelo de Melo Rezende. Editora Luzeiro. (http://www.editoraluzeiro.com.br/)
R$2,80
(cerca de 4 fls. por aluno)
Papel sulfite A4 (para a produção das gravuras)
R$ 12,00 (pacote com 100 fls.)
(quantidade de aluno x 10)
Fotocópias (dos textos)
R$0,12 (a cópia)
02
Cartuchos de tinta para impressora (um colorido e um preto, para a impressão dos textos a serem fotocopiados e das 12 capas de folhetos de cordel)
Bandejas de isopor (podem ser reutilizadas ou compradas), 3 potes de tinta guache de diferentes cores, 10 rolinhos de pintura, palitos de diferentes tipos
Providências necessárias
– Reservar aparelhos para a exibição dos vídeos e para a audição da canção.
– Baixar e/ou gravar com antecedência a canção e os vídeos sugeridos:
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*Canção: “Pavão mysterioso”:
http://b.radio.musica.uol.com.br/radio/index.php?ad=on&ref=Musica&busca=pav%E3o&param1=homebusca&q=pav%E3o&check=musica&x=50&y=6
* Documentário: A saga do cordel na terra do cacau (7’32):
http://www.youtube.com/watch?v=YzwIKkg4BJY
*Duelo entre Ivanildo Vilanova e Raimundo Caetano (5’30):
http://www.youtube.com/watch?v=zkcBZtcVgVA&NR=1
* Características do ABC, segundo o cantador Leandro Tranquilino Pereira (3’07):
http://www.youtube.com/watch?v=tB6bPwG6LhA
* Cena do documentário Nordeste: cordel, repente e canção (1’08):
http://www.youtube.com/watch?v=vlhpltN12DU
* Animação: A moça que dançou depois de morta, de Ítalo Cajueiro (11’00):
http://www.portacurtas.com.br/pop_160.asp?Cod=3144&Exib=1
* A arte do poeta cordelista e gravador J. Borges (7’03):
http://www.youtube.com/watch?v=dQOtg_aV‐I4
– Imprimir as seguintes capas de folhetos de cordel:
O advogado, o diabo e a bengala encantada – Marcos Mairton; Reclamações do além – José Ribamar Alves; A resistência do povo de Mossoró ao cangaço – José Ribamar Alves; Che, um guerrilheiro chamado Guevara – J. Victtor; Pedro Malazartes e o urubu adivinhão – Klévisson Viana; O homem que pôs um ovo – Evaristo Geraldo; História da donzela Teodora – Leandro Gomes de Barros; A defesa de Lampião – José Augusto; Casamento e divórcio da lagartixa – Leandro Gomes de Barros; Proezas de João Grillo – João Ferreira Lima; O batizado do gato – Arievaldo Viana; Santos padroeiros da Diocese de Santa Luzia – Manoel Tavares.
(todas disponíveis em http://www.queimabucha.com/?pagina=cordeis&p=2)8.
– Imprimir e fotocopiar os seguintes textos:
* Letra da canção “Pavão mysterioso”;
* Excerto da reportagem de Janaína Rocha (transcrito adiante);
8 Quando esta atividade foi elaborada, o site estava disponível. Em 10/09/2009, o site estava fora do ar e a seguinte mensagem foi exibida: "Em breve novo site". Caso o site não esteja disponível por ocasião do desenvolvimento desta atividade, você pode adaptá‐la fornecendo aos alunos apenas o nome dos cordéis em questão.
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* Estrofes finais do folheto Morte, saudade e lembrança de Severino Ferreira (http://adercego.blogsome.com/2007/05/23/acrosticos/);
* ABC da saudade
(disponível em http://www.arteducacao.pro.br/Cultura/cordel/cordel8.htm);
* Michael Jackson para sempre
(disponível em http://recantodasletras.uol.com.br/cordel/1668970);
* Acordo ortográfico e as mudanças no português do Brasil
(disponível em http://mundocordel.blogspot.com/search?q=acordo+ortogr%C3%A1fico).
Ações
Aula 1 O tema do cordel revisitado pela MPB: audição da canção e apreciações compartilhadas em roda de conversa
(Professor: A dissociação da leitura da canção em três etapas é uma organização didática, que busca auxiliar os alunos a tomar consciência da complexidade que há na leitura, especialmente quando há mais de uma linguagem no texto, e de como os sentidos são processualmente construídos.)
1º PASSO – A linguagem musical e a construção dos sentidos
Ouça com os alunos a canção “Pavão mysterioso”, de Ednardo. Você pode optar pela interpretação do próprio compositor (álbum O romance do pavão mysteriozo, 1974) ou pela de Fernanda Takai (Álbum Um barzinho, um violão, 2008), que é mais conhecida do público jovem.

Converse com os alunos sobre a música, cuidando para que o foco, nesse primeiro momento, seja especificamente sobre a linguagem musical: Quais são os instrumentos percebidos? Em que gêneros musicais eles são comumente usados? Ela é mais harmônica (os sons das notas combinam‐se com regularidade, permitindo o acompanhamento da melodia) ou desarmônica (maior complexidade na combinação dos sons, sendo difícil acompanhá‐la com assobios ou palmas, por exemplo)? Que sensações ela despertou: alegria, tranquilidade, angústia, suspense?
(Professor: Em sua mediação, procure garantir que os alunos construam a percepção da presença dos instrumentos típicos da música nordestina: o triângulo e a zabumba, na interpretação de Ednardo, e a sanfona, ou acordeão, na de Fernanda Takai. É importante também que eles percebam que a música é predominantemente harmônica, permitindo nosso acompanhamento, mas tem momentos de “extensão” de um mesmo som, o que dá a sensação de ruptura da harmonia e da tranquilidade e sugere a sensação de suspense.)
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2º PASSO – Os versos e a construção dos sentidos

Distribua a letra da canção e faça mais uma audição com os alunos, pedindo que eles acompanhem silenciosamente, observando a integração entre os versos e os sons musicais.

Promova uma nova conversa: Que sentimentos eles tiveram ao prestar atenção também nos versos? Qual momento da música eles consideram mais dramático? O conteúdo dos versos desse momento também é dramático?

Peça aos alunos que leiam oralmente a primeira estrofe da canção. Faça sua leitura, dando ênfase aos sons representados pelas letras s e z. Peça que os alunos façam o mesmo. Questione: Vocês percebem as aliterações (repetições de um mesmo som consonantal)? Considerando o conteúdo dos versos, o que esses sons tentam imitar? Que ideias a palavra voar inspira: liberdade, medo, cautela?

Ainda em conversa, proponha questões que permitam o exercício de capacidades leitoras de compreensão textual:
– Que palavras da canção rimam com voar? Todas essas palavras estão relacionadas ao eu lírico?
– Quando as palavras fazem rimas, seus sentidos também ficam modificados, como se elas se completassem entre si. Que sentidos as ações do eu lírico podem ganhar, por fazerem rima com o voar do pavão?
– Que versos permitem inferir que o eu lírico corre perigo de vida?
– Que tipos de pessoas podem estar implícitos no pronome “eles”, na terceira estrofe? Amigos ou inimigos do eu lírico?
(Professor: A partir das contribuições dos alunos, faça uma fala de sistematização, explicitando que há na canção uma oposição de forças: de um lado, a ideia de liberdade no voar do pavão; de outro, a de violência do conde raivoso e as pessoas referidas em “eles”. O eu lírico corre risco de vida e pede proteção ao pavão: “Me poupa do vexame/ De morrer tão moço”. A maior dramaticidade desse pedido acontece no momento em que o eu lírico pede ao pavão que tome ações mais drásticas, capazes de destruir o que está errado: “Derrama essas faíscas/ Despeja esse trovão/ Desmancha isso tudo, oh!/ Que não é certo não...”. Ressalte também a beleza com que os versos imitam sonoramente o voar do pavão; graças à aliteração dos sons representados pelas letras s e z, há a sensação de que as asas do pavão cortam o ar, em pleno voo. Por fim, destaque a identidade entre as ações desejadas pelo eu lírico – contar histórias, brincar, olhar – e o voar do pavão, por meio das rimas.)
3º PASSO – A canção em seu tempo

Levante o que os alunos sabem sobre a música “Pavão mysterioso” e sobre o momento em que ela foi produzida: Quem é o compositor? Em que ano a canção tornou‐se pública? O que acontecia na política brasileira de então? Que relações havia entre os acontecimentos políticos e as manifestações artísticas? (Se necessário, informe o ano em que o álbum foi lançado e, com questões de mediação, contribua para que os alunos resgatem o que já sabem sobre o regime de exceção, imposto pela ditadura militar, com o Golpe de 64.)

Distribua aos alunos cópia do seguinte excerto da reportagem de Janaína Rocha, publicada no Caderno 2 do jornal O Estado de S. Paulo, em 21/02/2001:
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“O álbum mais importante da carreira de Ednardo, O romance do pavão mysteriozo, foi lançado em 1974. O disco foi impulsionado pelo sucesso da novela Saramandaia, que incluiu na sua trilha a canção “Pavão mysteriozo”, baseada no cordel de mesmo nome. "É um cordel que conheço desde criança, por intermédio de meu pai, um professor do interior do Ceará que tinha mania de contar muitas histórias para a gente. Por causa dessa lembrança, fui atrás do cordel, no Mercado Central, em Fortaleza", conta. "Inspirado nele, fiz um paralelo metafórico com a situação do Brasil na época, com a violência da ditadura. Foi um cordel moderno que contou muito sobre a história da nossa saída de Fortaleza até a chegada ao eixo Rio‐São Paulo."
(reportagem integral disponível em http://www.ednardo.art.br/materi17.htm)

Peça que leiam silenciosamente, identificando a “fala” da jornalista e a do compositor Ednardo.

Oralmente, explore com os alunos as relações entre a canção e sua época: Que sentidos metafóricos, isto é, figurados, pode ter o voo do pavão da canção? E os versos “Um conde raivoso/ Não tarda a chegar”?

Coloque em debate: por que a canção escapou à censura?
(Professor: É importante que os alunos percebam na canção o discurso de resistência e protesto contra a ditadura militar. A ideia de liberdade defendida metaforicamente nela escapou à censura, provavelmente, por ser representada por um pássaro misterioso, imaginário, recriado a partir do cordel. Assim, o discurso ganha a ambiguidade de tanto pertencer à fantasia artística quanto ao apelo da sociedade civil pelo fim da opressão e da censura. Não deixe de observar a provocação do poeta, certo de que os censores não compreenderiam essa pluralidade de significados: Eles são muitos, mas não sabem voar, isto é, olhar, brincar, contar histórias, experimentar a liberdade da criação.)
4º PASSO – Apreciação livre da animação A moça que dançou depois de morta, de Ítalo Cajueiro, a partir da narrativa de J. Borges
(disponível em http://www.portacurtas.com.br/pop_160.asp?Cod=3144&Exib=1)
Crie expectativas pela continuidade do projeto: Vocês conhecem o cordel O pavão misterioso, que serviu de inspiração ao compositor? Conhecem literatura de cordel? Informe que eles terão oportunidade de saber mais sobre essa tradição e, inclusive, ler o folheto com a história do pavão, ao longo do projeto. Anuncie que, para iniciar a “viagem” pelo mundo do cordel, eles assistirão a uma animação cinematográfica feita a partir da história de cordel A moça que dançou depois de morta, de J. Borges. Oriente‐os para que, além de aproveitarem bem essa história de arrepiar, tentem perceber que elementos do cordel estão presentes nessa animação. Com isso você vai poder saber um pouco sobre os conhecimentos prévios que seus alunos já possuem sobre o gênero. Veja se eles percebem que a história é contada em versos, com acompanhamento de viola, e por meio de desenhos feitos em xilogravura. Por fim, diga que a animação é um curta‐metragem, que primeiro foi apresentado em festivais de cinema, quando então recebeu vários prêmios, e agora está disponível na internet.
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Aula 2 (Re)conhecendo a literatura de cordel
1º PASSO – Levantamento de informações sobre as condições de produção e recepção da literatura de cordel, com base no documentário A saga do cordel na terra do cacau
(disponível em http://www.youtube.com/watch?v=YzwIKkg4BJY)

Explique aos alunos que eles assistirão a cenas de um documentário sobre a literatura de cordel. Antecipe características desse gênero cinematográfico, que geralmente é pouco conhecido dos alunos: explique que, em vez de cenários e atores, a câmera focará espaços e pessoas, no caso, poetas baianos, que falarão da experiência de produzir cordel e declamarão textos. Alternando‐se aos depoimentos, haverá telas de “chamadas” e animações, que permitem organizar o documentário em partes.

Reproduza a parte 1 do documentário e deixe que os alunos a assistam livremente. A seguir, em conversa, promova a manifestação das impressões deles:
– É possível perceber em que partes o documentário se organiza?
– As cores usadas nas animações e a trilha sonora combinam com o tema do documentário?
– O que acharam de ouvir os próprios poetas falarem sobre o cordel?

A seguir, diga que eles assistirão mais uma vez ao documentário, e peça que observem, especialmente, os seguintes pontos (registre as questões orientadoras na lousa, mas é importante que os alunos não tenham a preocupação de anotá‐las; basta que acompanhem o documentário, focando a atenção e o interesse nessas informações):
– Por que o cordel é considerado manifestação da cultura popular?
– Quais as características do suporte folheto?
– O que são versos em sextilhas? E rimas em xaxaxa?
– Como são as ilustrações da literatura de cordel?
– O que são versos acrósticos?
– O que há de comum entre o cordelista e o repentista?

Ouça o que os alunos apreenderam do documentário e faça uma fala de sistematização, valorizando as colocações deles e relacionado‐as. Garanta que eles percebam que o caráter popular do cordel tem a ver não apenas com os temas da cultura nordestina, mas com a organização das histórias em uma quantidade regular de versos, com rimas e métrica (cada verso tem o mesmo número de sílabas poéticas), que facilitam e tornam prazerosa a divulgação oral delas. Observe que, quando passou a ser impressa, a literatura de cordel manteve a estrutura em versos em um suporte simples (o folheto), feito de modo artesanal, até mesmo no processo de ilustrações em xilogravura, com baixo custo de produção e distribuição. Acrescente a informação de que os versos acrósticos, além de mostrarem a criatividade dos poetas mais “fecundos”, são também um modo de marcar a autoria dos versos. É como se o poeta cifrasse seu nome para seu esperto ouvinte ou leitor, para que ele (o autor) não fosse enganado, caso outro cordelista se fizesse passar por dono da história.
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Transcreva na lousa a fala do poeta Gilton Thomaz: “Cordel é o gênero de cultura popular na região onde os poetas continuam na escrita a tradição dos cantadores repentistas com as mais belas histórias do cotidiano político‐social ou de sua imaginação”. A seguir, organize a sala em quatro grupos de trabalho e ofereça a cada um deles três das seguintes cópias de capas de folhetos de cordel: O advogado, o diabo e a bengala encantada – Marcos Mairton; Reclamações do além – José Ribamar Alves; A resistência do povo de Mossoró ao cangaço – José Ribamar Alves; Che, um guerrilheiro chamado Guevara – J Victtor; Pedro Malazartes e o urubu adivinhão – Klévisson Viana; O homem que pôs um ovo – Evaristo Geraldo; História da donzela Teodora – Leandro Gomes de Barros; A defesa de Lampião – José Augusto; Casamento e divórcio da lagartixa – Leandro Gomes de Barros; Proezas de João Grillo – João Ferreira Lima; O batizado do gato – Arievaldo Viana; Santos padroeiros da Diocese de Santa Luzia – Manoel Tavares. (todas disponíveis em http://www.queimabucha.com/?pagina=cordeis&p=2)9
Ofereça tempo suficiente para que os grupos leiam as capas e busquem inferir do que tratará cada história e, com base na fala do poeta, percebam qual deve ser o conteúdo predominante em cada uma dessas histórias: cotidiano sociopolítico ou imaginário? Peça que cada grupo eleja um relator, que deverá apresentar as capas, as inferências e análises feitas pela equipe.
(Professor: Durante as apresentações, observe se os alunos fizeram inferências coerentes com os títulos e as ilustrações das capas. Chame a atenção deles para a grande quantidade de temas que as narrativas de cordel exploram: religião, personalidades e eventos históricos, humor, anedotas, costumes e tradições locais. Aproveite também para ouvi‐los sobre o que acharam dos títulos que os poetas deram a suas histórias.)
2º PASSO – Análise de recursos expressivos: versos acrósticos e rimas
Distribua aos alunos cópia com as estrofes finais do folheto Morte, saudade e lembrança de Severino Ferreira (disponível em http://adercego.blogsome.com/2007/05/23/acrosticos/), de Zé Saldanha. Auxilie‐os a formular hipóteses sobre o texto: Com base no título, qual deve ser o tema do texto? Que sentimentos o eu lírico deve ter por Severino Ferreira? A seguir faça uma leitura bem expressiva dos versos e questione: Essas estrofes confirmam as expectativas levantadas? Peça que os alunos observem as iniciais de cada verso: que mensagem está cifrada ali? Por quê, em vez de assinar o próprio nome, como é comum na literatura de cordel, o poeta preferiu escrever o do amigo?

Explique aos alunos que a métrica do verso é a quantidade de sílabas poéticas que ele tem. Diferentemente da divisão silábica tradicional, a poética considera a enunciação dos versos, por isso a contagem é até a sílaba tônica da última palavra. Às vezes o poeta junta sons vocálicos em uma mesma sílaba poética, às vezes os mantém separados, tudo depende do tipo de verso que ele quer conseguir.

Explore a escansão da primeira estrofe, com o apoio da lousa:
S o brea dí vi da da mor (te)
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9 Quando esta atividade foi elaborada, o site estava disponível. Em 10/09/2009, o site estava fora do ar e a seguinte mensagem foi exibida: "Em breve novo site". Caso o site não esteja disponível por ocasião do desenvolvimento desta atividade, você pode adaptá‐la fornecendo aos alunos apenas o nome dos cordéis em questão.
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A no ssa vi dae quem pa (ga),
U m bom a mi go da gen (te)
D a que les quea gen tea fa (ga)
A mor te du rae mal va (da)
D á‐ lhe uma boa bor do a (da)
E le de prés sa sea pa (ga)

Aproveite a transcrição feita na lousa para identificar as rimas. Para cada som diferente no fim dos versos, indique uma letra do alfabeto: ababccb (não se preocupe com os nomes desses tipos de rimas, lembre‐se de que o sentido desse passo é perceber os recursos poéticos e não classificá‐los). Peça que os alunos identifiquem as rimas da segunda estrofe.
3º PASSO – Recriando os versos: breves exercícios de autoria e apreciação
Divida a sala em grupos e lance o desafio de que promovam duas alterações no texto (em qualquer das duas estrofes), sem que sejam desrespeitados a métrica (cada verso deve continuar com sete sílabas poéticas), a rima entre os versos (ababccb), o efeito acróstico (as iniciais dos versos devem continuar compondo a mensagem “Saudade de Severino”) e os sentidos que os versos originais sugerem. Os desafios são:
1) A substituição de uma palavra em qualquer posição de um verso, por exemplo:
D á‐ lhe uma boa bor do a (da)
D á‐ lhe uma boa ta ba ca (da)
D á‐ lhe uma só bor do a (da)
2) A proposição de um verso novo, como nos exemplos abaixo, em que a ação da morte sobre a vida é apontada de diferentes maneiras:
A mor te du rae mal va (da)
De se nhao fim da es tra (da)
Diz quea ho ra é che ga (da)
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Após o término dos trabalhos, peça que os grupos declamem as novas versões e promova apreciações sobre elas: Atendem ou não ao desafio? Qual proposta é mais fiel aos sentidos originais do texto?
(Professor: Valorize as propostas dos alunos, mesmo que elas estejam falhas em algum aspecto e, nesse caso, promova, em caráter colaborativo, a reescrita. O mais importante é que os alunos possam vivenciar regras da criação poética e a associação delas com intenções de sentidos.)
Aula 3 Os gêneros da literatura de cordel
1º PASSO – Características da peleja ou desafio, com base na audição do duelo entre Ivanildo Vilanova e Raimundo Caetano
(disponível em http://www.youtube.com/watch?v=zkcBZtcVgVA&NR=1)

Inicie aula comentando a atividade anterior: observe que, além de seu caráter lúdico, a proposta trazia o desafio de manter a criação verbal dentro de uma estrutura prévia, que não poderia ser desrespeitada, e o de manter os sentidos sugeridos pelos versos originais, no caso a lamentação da morte do poeta Severino Ferreira e a celebração, por meio da própria poesia, de sua memória. Acrescente a informação de que há um gênero de cordel chamado desafio ou peleja. Nele, os poetas “duelam” com palavras, isto é, precisam criar, a partir de um tema ou de um mote, versos, dentro de um esquema de métricas e rimas predefinido. Não deixe de valorizar, nessa apresentação, o mais surpreendente desse duelo: o fato de os poetas criarem seus versos de improviso!

Anuncie aos alunos que eles ouvirão a disputa entre Ivanildo Vila Nova e Raimundo Caetano, vencedores do 8º Desafio Nordestino de Poetas Cantadores. Informe que, além do áudio, haverá a exibição dos versos escritos.

Após a audição, converse com os alunos sobre suas primeiras impressões e observações: Qual dos poetas canta seus versos com entonação mais “desafiadora”? O que eles acharam dos acordes de viola acompanhando os versos? Quais são os versos que servem de mote? De que os poetas querem convencer o público ouvinte?
(Professor: Dentre as sugestões dos alunos, observe se está clara a ideia de que cada cantador argumenta em favor de si mesmo, a fim de provar que não há quem assuma o lugar dele.)
Exiba mais uma vez a declamação da primeira estrofe e pause o vídeo, para que o texto verbal fique exposto. Pergunte aos alunos quantos versos há, se percebem qual é a métrica seguida e como é o esquema de rimas; faça mediações caso haja compreensões diferentes desses aspectos. Registre o esquema de rimas na lousa, aproveitando para relembrar que cada terminação de verso deve ser indicada por uma letra do alfabeto (abbaaccddc). Exiba a segunda estrofe e promova a mesma análise. A essa altura, os alunos já devem ter percebido que há a mesma quantidade de versos (dez versos), a mesma métrica (cada verso tem dez sílabas poéticas) e o mesmo esquema de rima (abbaaccddc). Acrescente a informação de que, ao longo de todo o duelo, os poetas manterão esse “jogo” formal, para tentar convencer o público de que cada um é o melhor cantador.
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Faça mais uma exibição e peça aos alunos que observem como, apesar desse rigor da forma poética, os cantadores apresentam argumentos coerentes, criativos e muito bem‐humorados e como o público reage a eles. Abra mais uma rodada de conversa, perguntando pelos argumentos dos quais eles mais gostaram. Com base nas colocações dos alunos, faça observações sobre a originalidade dos argumentos empregados, aproveitando para destacar a mescla de tradição local com assuntos de interesse universal, como a sugestão de Ivanildo de que a clonagem seja usada para “copiar” seu perfil de campeão.
2º PASSO – Características do ABC, segundo o cantador Leandro Tranquilino Pereira
(disponível em http://www.youtube.com/watch?v=tB6bPwG6LhA)

Informe aos alunos que eles assistirão a um vídeo em que o poeta Leandro Tranquilino Pereira falará de outro gênero do cordel: o ABC. Após a exibição do vídeo, pergunte o que acharam do jogo de palavras e sentidos que o poeta faz com a palavra “cantador”. Depois pergunte o que aprenderam sobre o gênero ABC. Distribua cópia do texto ABC da saudade, de Luiz da Costa Pinheiro (disponível em http://www.arteducacao.pro.br/Cultura/cordel/cordel8.htm). Peça que os alunos localizem o verso que inicia cada estrofe e que observem como a primeira palavra de cada um deles vai compondo a sequência alfabética do texto. Coloque em questão a solução poética que o autor encontrou para suprir a ausência de palavras do português iniciadas com as letras K e Y (lembrar que, com a nova Reforma Ortográfica, essas letras agora fazem parte do alfabeto português).

Peça colaboração do alunos para uma leitura coletiva: diga que você precisará de vinte e cinco intérpretes (procure dar ludicidade à divisão dessa tarefa, sorteando as letras entre os colaboradores, por exemplo). Oriente‐os para que observem a métrica e, principalmente, a entonação saudosa que os versos sugerem. Se quiser, você pode sugerir a mesma atividade, explorando apenas as estrofes iniciadas com as vogais; o importante é garantir que os alunos ouçam leituras do texto e “brinquem” com sua sequência alfabética.
3º PASSO – O cordel de circunstância, características da temática com base em textos do cordel contemporâneo
(disponíveis em http://recantodasletras.uol.com.br/cordel/1668970 e
http://mundocordel.blogspot.com/search?q=acordo+ortogr%C3%A1fico)
Distribua cópia dos textos Michael Jackson para sempre e Acordo ortográfico e as mudanças no português do Brasil. Faça uma leitura bem expressiva de cada um dos textos e depois discuta com a turma: Quais são os temas de cada um dos textos? Quais as possíveis razões que teriam levado os poetas a escolher esses temas? Quais são as diferenças entre o tratamento que o poeta dá a esses temas e o que os gêneros jornalísticos dão? A partir das colocações dos alunos, faça uma fala de síntese, procurando explicitar a ideia de que o cordel de circunstância, apesar de tratar de temas contemporâneos e de grande interesse, não perde o compromisso de trabalhar poeticamente a linguagem.
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Aula 4 O gênero romance na literatura de cordel: leitura e apreciação do romance O pavão misterioso, de José Camelo de Melo Rezende
1º PASSO – Relações intertextuais: a canção e a cena de um documentário, como facilitadores da compreensão inicial do romance
(disponível em http://www.youtube.com/watch?v=vlhpltN12DU)

Inicie a aula recordando a canção “Pavão mysterioso”. Pergunte se os alunos se recordam em que texto de cordel o compositor se inspirou para criar sua canção. Pergunte também pelas personagens que são citadas nela. Anote essas informações na lousa.

Diga que eles assistirão à cena de um documentário, Nordeste: cordel, repente e canção (produção de Tânia Quaresma, 1975), em que um cantador nordestino declamará as primeiras estrofes do romance O pavão misterioso. Aproveite para esclarecer que o gênero romance não tem como conteúdo apenas histórias de amor. Na verdade, o romance pode ter diferentes tramas narrativas: aventura, humor, mistério e, claro, também amor.

Oriente os alunos para que, nessa primeira exibição, procurem prestar atenção ao movimento que a câmera faz para focar o cantador. Após a exibição, proponha questões que permitam relacionar o movimento da câmera com intenções narrativas: Que movimentos a câmera faz? Que intenções deve haver nesse movimento de isolar o foco sobre o cantador e depois abrir lentamente? E, no segundo momento, por que a câmera isola novamente o cantador, faz um corte, e foca a cena de cima? A partir das colocações deles, faça mediações que os auxiliem a perceber como a câmera quer mostrar a integração do cantador na coletividade: é como se, na medida em que ela ampliasse o foco, fosse seguindo os movimentos dos versos, que do texto impresso se torna canto e se espalha pelos ouvintes/leitores. Tanto no primeiro movimento, como no segundo, ela mantém o cantador e o cordel no centro, como uma espécie de força atrativa, para, a partir dele, focar a participação silenciosa, mas muito interessada, do público.

Faça uma nova exibição do vídeo, pedindo que a atenção seja maior sobre a declamação e o conteúdo dos versos.

Permita que os alunos construam hipóteses sobre o texto a partir das primeiras “pistas” ouvidas: Quais personagens aparecem nesse início de texto? (Faça as anotações ao lado dos registros de personagens citadas na canção.) Pela entonação do cantador e pelo conteúdo dos versos, é possível perceber maior simpatia por algumas personagens do que por outras? Retome as anotações feitas na lousa e peça que os alunos identifiquem quais personagens a canção retirou do cordel. Peça que falem das relações que perceberam ou inferiram haver entre as personagens do romance. Faça mais uma exibição, para que os alunos possam checar essas hipóteses.

Faça uma fala de síntese, explicitando como esses versos iniciais já trazem vários elementos que incitam nossa curiosidade para prosseguir na história: há um pavão misterioso que foi usado pelo rapaz corajoso (provavelmente um dos filhos do turco capitalista: João Evangelista, o mais moço; ou João Batista, o mais velho), para raptar uma condessa grega. Se o pai dos rapazes é generoso com os filhos, o da moça é um conde severo e orgulhoso: não permite que ninguém converse com ela, a ponto de ser “morto o criado que dela ouvir a fala”. Como o rapaz corajoso conseguirá raptar essa condessa tão vigiada pelo pai? O que o pavão misterioso terá a ver com isso? Como será que esse conde reagirá ao saber do rapto da condessa? Mantenha as questões em suspense e
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aproveite as expectativas por elas geradas, para anunciar aos alunos que agora eles receberão a história inteira, na forma de folheto de cordel!
2º PASSO – Leitura compartilhada do romance O pavão misterioso

Distribua os folhetos e incentive os alunos a reconhecer o que já aprenderam sobre as características do suporte, sua ilustração e os aspectos formais dos versos: peça que observem o tamanho, o formato do folheto e a qualidade do papel. Lembre‐os de como essas características permitem o baixo custo de produção do folheto. Observe que, diferentemente dos folhetos vistos nos documentários, esse não tem a ilustração da capa em xilogravura. Explique que isso se deve ao fato de essa edição ser feita por uma editora, com tiragem bem maior que as feitas, de modo artesanal, pelos próprios artistas. Peça que passem as páginas do folheto e que observem a quantidade de versos que se repetem em cada estrofe (são sempre seis versos ou sextilhas), a métrica desses versos (são todos em sete sílabas poéticas, os chamados versos em redondilha maior) e o esquema de rimas (resgate a fala da poetisa Janete Lainha, sobre o esquema xaxaxa, isto é, os versos 2, 4 e 6 rimam entre si; os versos 1, 3 e 5 não são rimados). Solicite que eles leiam a última estrofe do folheto. Pergunte quais hipóteses eles têm para o fato de essa estrofe não seguir formalmente as outras. Depois de ouvi‐los, acrescente que, segundo pesquisadores, o texto original foi criado por José Camelo de Melo Rezende, por volta de 1920, e era divulgado oralmente pelo próprio autor. João Melchíades Ferreira, aproveitando a necessidade de José Camelo em ficar fora do Estado da Paraíba por algum tempo, teria publicado o texto como seu. Quando retornou, José Camelo reclamou a autoria do texto e publicou sua história em versão impressa, acrescentando a estrofe de dez versos, que pede a justiça de Deus e, por efeito acróstico, marca seu nome na história.

Anuncie que você contará a história e peça que todos a acompanhem pelo folheto. Leia com tranquilidade (não se preocupe em declamar como os cantadores, mas dê entonação significativa ao texto) até a última estrofe da página quatro. Crie expectativas em torno do objeto que o irmão viajante trará de presente ao outro, questionando: Que presentes as pessoas comumente trazem quando voltam de viagens? E João Batista, o que poderia comprar para o irmão mais novo? Prossiga até a página 9, penúltima estrofe, e discuta com os alunos: O que está implícito no verso “Precipício não convém!”? Articule as colocações dos alunos, garantindo que se lembrem de que o pai esconde a filha em um sobrado e proíbe qualquer contato com ela, ameaçando de morte até mesmo os criados da casa que ousarem falar com ela. Prossiga até a página 12, última estrofe. Promova novas expectativas: O que o engenheiro pode criar para ajudar João a falar com a condessa? Problematize as hipóteses que aparecerem à luz da coerência do texto (um telefone, por exemplo, não ajudaria o rapaz, pois não haveria como deixar um aparelho no quarto da moça; promova, assim, a percepção da dificuldade do obstáculo que o rapaz precisa vencer com o apoio do engenheiro, daí a disposição em pagar o que o engenheiro quiser). Retome a leitura do texto até a página 21, até a segunda estrofe, e abra novamente uma discussão para construção de hipóteses e antecipação de conteúdos: Vocês acham que Creusa, finalmente, fugirá com João Evangelista ou obedecerá, mais uma vez, ao pai?
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3º PASSO – Leitura silenciosa do romance O pavão misterioso e compartilhamento de questões de apreciação

Aproveite essa suspensão da narrativa para trocar a dinâmica de leitura. Peça que os alunos leiam silenciosamente a continuidade da narrativa e coloque‐se à disposição deles, caso precisem de apoio em alguma passagem do texto.

Após a conclusão das leituras, promova questões de apreciação: O que mais os surpreendeu na história e por quê? Qual das personagens tem seus valores transformados? Que relações pode haver entre o modo como Creusa foi criada pelo conde e o modo como a maior parte das mulheres era educada no Nordeste brasileiro do início do século XX?

Que aproximações podem ser feitas entre o “Pavão mysterioso” da canção de Ednardo e o pavão feito pelo engenheiro?
(Professor: Os alunos deverão ter notado como, tanto no cordel quanto na canção, o pássaro não é um pavão comum. No romance, ele é uma criação tecnológica, mas revestida da fantasia da ave simbólica. Na canção, apesar de haver mais referências a uma ave comum, o aspecto mágico é garantido pela ligação que há entre o eu lírico e o voo da ave. O traço mais comum entre o pavão do cordel e o da MPB é a função libertária que eles têm: em ambos os textos, os pássaros servem de instrumento para enfrentar a opressão e a tirania. Entretanto, no cordel essa função é explorada e leva à libertação da condessa; já na canção, o voo libertário do pavão é ainda um desejo a ser conquistado pelo eu lírico, uma inspiração, e nem poderia ser diferente, dada a intenção do compositor em se posicionar no seu momento histórico.)
Aula 5 Produção de gravuras a partir do romance O pavão misterioso
1º PASSO – A valorização do imaginário no cordel e na xilogravura, questões de apreciação do vídeo A arte do poeta cordelista e gravador J. Borges, de Laurita Caldas
(disponível em http://www.youtube.com/watch?v=dQOtg_aV‐I4)

Pergunte aos alunos se eles se recordam do nome do poeta que escreveu o romance A moça que dançou depois de morta, que eles conheceram pela animação de Ítalo Cajueiro. Diga que eles assistirão a um vídeo com o depoimento desse artista, J. Borges, considerado o nome mais importante na tradição da xilogravura brasileira. Peça que observem os espaços que a câmera percorre até chegar ao espaço de trabalho de J. Borges e seus filhos. Oriente‐os também para que procurem compreender a concepção de cordel de J. Borges, o que ele mais valoriza em sua arte.

Promova a apreciação dos alunos: Pergunte o que acharam do vídeo, do percurso que a câmera faz, dos espaços que ela integra? E sobre o depoimento de Borges: O que ele quer dizer com a fala “O cordel bom mesmo é o cordel mentiroso. O cordel que se consagra, que o povo gosta, é a mentira. O cordel real ele não dá nem oito dias de sucesso, o povo já sabe da história e acaba com aquilo, não quer saber mais. Agora a mentira mesmo é que continua durante séculos”. E vocês, o que pensam: qual história de cordel é melhor: a de circunstância ou a imaginada? E das xilogravuras vistas: alguma chamou mais a atenção de vocês? Pergunte se reconheceram o desenho que um dos filhos de J. Borges, o artista J. Miguel, fez para o romance O pavão misterioso. Exiba somente essa xilogravura e pause o vídeo, para que os alunos possam melhor observar esse trabalho. Promova a análise dele: o casal de jovens parece ser de um tempo distante ou mais
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próximo de nós? Por quê? Na representação do pavão misterioso, quais os traços que lembram uma ave e quais lembram uma máquina de voar? Quais outros aspectos dessa xilogravura permitem dizer que ela tem mais compromisso com a “mentira” do que com a “verdade”?
2º Passo – Produção de gravuras na escola: a exploração de materiais alternativos
(Para esta atividade, seria muito interessante o apoio do professor de Artes. No blog publicado em http://conectmar.blogspot.com/2008/07/carimbo‐de‐isopor.html, você encontrará orientações didáticas para a realização da “isoporgravura”.)

Converse com os alunos sobre as dificuldades na produção da xilogravura: Pergunte se deve ser fácil conseguir madeira, se o artista pode trabalhar com madeira de origem desconhecida, quais problemas podem ser encontrados se a madeira for de extração ilegal. Questione também as especificidades da técnica: Deve ser fácil talhar traços tão delicados em material duro como a madeira? A seguir, anuncie que, dadas essas dificuldades, próprias da xilogravura, eles irão trabalhar com outra modalidade de gravura, própria para experimentar a técnica de desenho em baixo relevo para impressão com contraste, mas com material alternativo: bandeja de isopor.
(Professor: Você pode sugerir que os alunos façam a reutilização de bandejas que condicionam alimentos. Nesse caso, seria necessário combinar com antecedência a providência e a higienização do material, que não pode conter ranhuras profundas, para que não haja interferência na qualidade da impressão. Se você considerar mais conveniente trabalhar com bandejas novas, procure‐as em casas de embalagens.)

Peça que escolham uma personagem ou uma cena do romance, que releiam versos que tratam dela e imaginem como seria possível “falar” desse mesmo conteúdo por meio do desenho. Combine com os alunos: os desenhos serão expostos e comentados pela classe.

Organize a sala de modo adequado para o manuseio do material e inicie a oficina de “isoporgravura”, conforme as orientações que estão no site acima indicado. Você pode deixar como trilha sonora para o processo de criação dos alunos o CD Pavão misterioso (Gravadora Bandeirantes, 2008), em que vários artistas, com destaque para Antonio Nóbrega, interpretam canções feitas (dentre elas, a belíssima “Cantiga da moça cativa”) para uma adaptação teatral do romance de cordel.

Após os términos dos trabalhos, promova uma conversa final, para que os alunos avaliem o que acharam da experiência, contem em que passagem do romance eles se inspiraram e como foi “falar” disso por meio do desenho. Se for o caso, aproveite para sugerir que eles combinem uma forma de expor seus trabalhos na escola.

Um comentário:

  1. Ola meu nome e Uriel e nos fizemos na escola um monte de coisas legais tipo contas, bandeiras dos times que jogaram na copa do mundo

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